domingo, 16 de novembro de 2014

“A qualidade dos serviços de saúde mental está ligada ao respeito aos direitos humanos”, diz coordenador do MS

Reproduzo aqui um artigo importante sobre a saúde mental. Só há salvação se olharmos para o outro com os olhos do coração.

http://www.sul21.com.br/jornal/a-qualidade-dos-servicos-de-saude-mental-esta-ligada-ao-respeito-aos-direitos-humanos-diz-coordenador-do-ms/

9/nov/2014, 15h23min

“A qualidade dos serviços de saúde mental está ligada ao respeito aos direitos humanos”, diz coordenador do MS

 | Foto: Priscila da Silva/SES-RS
| Foto: Priscila da Silva/SES-RS
Débora Fogliatto*
Roberto Tykanori é um militante da reforma psiquiátrica desde os anos 1980, quando ainda era estudante de medicina. Após trabalhar em diversos hospitais em Santos e São Paulo, o psiquiatra foi convidado, no início do governo da presidente Dilma Rousseff (PT) a assumir a Coordenação-Geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, cargo que ocupa até hoje.
O coordenador esteve em Porto Alegre durante esta semana para o lançamento de um projeto piloto de uma metodologia de avaliação dos serviços em saúde mental. Na ocasião, falou ao Sul21, juntamente com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, sobre o projeto, a reforma psiquiátrica e medidas para combater o uso de drogas. Ele destacou um programa criado nos Estados Unidos e já testado em São Paulo que fornece moradia e emprego para pessoas em situação de rua dependentes de crack e contou como isso quebrou alguns mitos em relação a esses usuários.
Tykanori afirma que o Ministério da Saúde opera dentro da lógica da reforma psiquiátrica e lamenta que a questão ainda seja polêmica, lembrando que internacionalmente a discussão já está “superada”. “Isso é um debate mundialmente superado, a OMS tem isso como superado, inúmeros acadêmicos se organizam em todos os países”, ponderou, afirmando que a internação em hospitais psiquiátricos recentemente foi considerada tortura pela ONU. Leia a entrevista na íntegra:

“A qualidade dos serviços de saúde mental está ligada à questão da promoção e respeito aos direitos humanos”

Sul21 – O senhor veio para Porto Alegre para ver a aplicabilidade dessa metodologia de avaliação do serviço de saúde mental. Como é este projeto?
Tikanory – Estamos trazendo para o país um método de avaliação de serviços de saúde mental que foi desenvolvido pela Organização Mundia de Saúde (OMS) e em inglês se chama Qualityright, um neologismo juntando as palavras “qualidade” e “direito” em uma palavra única. Isso denota a ideia de que a qualidade dos serviços de saúde mental está ligada à questão da promoção e respeito aos direitos humanos. Esse instrumento de avaliação foi elaborado em torno da Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário e que foi incorporada na Constituição, através de um decreto que transforma ela em uma lei.
Nós ainda não criamos uma boa tradução para Qualityright, precisa ter uma viabilidade de ser compreendida pelas famílias, usuários e profissionais. Nós pretendemos fazer no país um processo de avaliação de serviços em que o protagonismo da avaliação seja dos usuários e seus familiares, associados com profissionais, categorias, representantes da sociedade civil, mas com protagonismo daqueles que têm interesse direto. Ao mesmo tempo, todo processo de avaliação supõe que os critérios sejam consensuados com quem é avaliado. Nossa ideia é que todos os gestores estejam cientes, possam acompanhar e estejam apropriados dos princípios que regem essa avaliação, porque intuito não é qualificar se é bom ou ruim, mas é que essa ferramenta promova um diálogo entre usuários, familiares e gestores de forma que possa ser sempre um processo de qualificação pactuada. Aquilo que se observa a partir do uso do instrumento possa ser apresentado para os gestores e eles pactuem planos de ação dentro do que é possível, em ciclos de atuação. O processo de qualificação não vai estancar, queremos que seja contínuo.
Oficinas de formação da ferramenta Quaityright contam com a participação de trabalhadores, gestores e usuários | Foto: Priscila da Silva/ SES
Oficinas de formação da ferramenta Quaityright contam com a participação de trabalhadores, gestores e usuários | Foto: Priscila da Silva/ SES
Sul21 – E por que começar esse projeto piloto pelo Rio Grande do Sul?
Tikanory – Viemos ao Rio Grande do Sul por várias razões. Entendemos que o estado tem historicamente uma tradição no entendimento das políticas de saúde mental. É um estado com alto nível de alfabetização historicamente, então a capacidade de domínio da linguagem do usuário e do gestor permite uma leitura crítica da semântica e do instrumento, inclusive para possibilitar alternativas linguísticas. Estamos focando aqui por colaboração dos companheiros do Rio Grande do Sul, que mobilizaram e convidaram cinco municípios. São profissionais da rede, associações de familiares e pacientes participando desse processo, além de parceria com quatro universidades do estado que terão papel fundamental na capacitação dos usuários e dos familiares.
Sul21 – A ideia é que se torne uma nova política pública, seja aplicado a todo país?
Tikanory – Estamos planejando que a partir do segundo semestre de 2015 se desencadeie o processo nacional. Não sei se poderemos fazer em todos os estados simultaneamente, mas certamente em algumas regiões do país. Para isso no primeiro semestre faremos o projeto piloto, como os que foram iniciados agora. E os gestores também terão a possibilidade de se auto-aplicarem, começa a se perceber a partir dos critérios que serão usados no futuro. Tem que ficar consensuado que esses itens são legítimos.

“Se começa a ter essa ideia de que as instituições totais – instituições de isolamento, fechadas em que pessoas estão submetidas a poderes muito assimétricos – são de alto risco de violação e tortura”

Sul21 – E isso tudo vai ser aplicado em redes de saúde mental, dentro da lógica da reforma psiquiátrica de extinguir os manicômios?
Tikanory – Sim, com certeza. O documento da Organização Mundial da Saúde (OMS) induz esse processo de reforma do mundo inteiro. Isso é algo concreto, reconhecido, de que serviços como hospitais psiquiátricos onde se tem concentração de pessoas, situações de não-transparência, pessoas ficam fechadas e isoladas são sempre de alto risco de violação de direitos. Agora a relatoria especial de Direitos Humanos da ONU passou a reconhecer isso como crime de tortura. Mundialmente se começa a ter essa ideia de que as instituições totais – instituições de isolamento, fechadas em que pessoas estão submetidas a poderes muito assimétricos – são de alto risco de violação e tortura.
Sul21 – A política de saúde mental que é feita no Rio Grande do Sul é um foco de tensão e resistência. Isso é uma situação do estado, ou se evidencia no resto do país? A gente sente isso, um embate diário.
 | Foto: Priscila da Silva/SES-RS
| Foto: Priscila da Silva/SES-RS
Tikanory – Olha, o processo de transformação da reforma psiquiátrica tem uma tensão histórica. Mas a lei de reforma foi aprovada no governo Fernando Henrique (PSDB), depois de doze anos de debate, quatro legislaturas do Congresso debateram essa lei. Então é um consenso da sociedade, as maiores forças da sociedade debateram e aprovaram. Isso não é pouco porque as pessoas confundem dizendo que a reforma foi feita pelo Partido dos Trabalhadores. Claro que historicamente o PT faz parte disso, mas grandes atores na história eram ligados ao PMDB, no Rio de Janeiro tem muita gente do PDT ligado a isso. A lei foi amalgamada por várias forças da sociedade, embora quem propôs tenha sido do PT. Então acho que as pessoas têm que ter um conhecimento do processo histórico da lei de reforma, que é uma lei realmente suprapartidária.

“Estamos falando de uma outra forma de lidar com os problemas sociais, ou seja, é uma reforma que muda como a sociedade lida com seus problemas”

Sul21 – Atualmente se vê muita oposição por parte de categorias médicas.
Tikanory – Sim, existe resistência maior no setor profissional médico. Dentro desse setor, quem mais resiste não necessariamente são os psiquiatras, mas quem era proprietário de hospitais psiquiátricos. Eles agora não ganham mais dinheiro quanto ganhavam antes, já foi a galinha dos ovos de ouro. E isso não tem a ver com epidemiologia, mas com o processo social. E existem demonstrações claras, Paul Singer nos anos 1970 tem um estudo de que o número de internações corre no inverso do crescimento econômico, temos demonstrações de curvas que se invertem o tempo todo. Particularmente na ditadura isso era muito eficaz, chegamos a ter mais de cem mil pessoas internadas. Estamos falando de uma outra forma de lidar com os problemas sociais, ou seja, é uma reforma que muda como a sociedade lida com seus problemas. Existe um desnível de entendimento, de compreensão sobre o processo da reforma e de interesses. Mas a categoria médica no geral não é necessariamente contra a reforma.
Talvez isso tenha também a ver com o nível de politização e polarização de todos os debates no estado. O que é ruim, porque se polariza certas coisas que não têm sentido. Isso é um debate mundialmente superado, a OMS tem isso como superado, inúmeros acadêmicos se organizam em todos os países.
Sul21 – Nos termos de clínicas particulares, também existe essa resistência? Como é o processo de reforma?
Tikanory – Aí se inverte, porque no campo privado as coisas são invertidas. As pessoas querem cada vez menos internar, porque se cria uma série de mecanismos para se ter acompanhante terapêutico, enfermeira em casa, isso é individualizado. A questão é que quando se trata de pessoas que “não são filho de alguém” digamos assim, despersonaliza a situação e se pensa como se fosse um método mais simples e lucrativo ficar nos hospitais.
 | Foto: Priscila da Silva/SES-RS
| Foto: Priscila da Silva/SES-RS
A reforma propõe um tipo de serviço em que se trabalha muito, o esforço é infinitamente maior e atende-se mais gente do que antes. Em 2002, o SUS fez em torno de 400 mil atendimentos registrados em saúde mental. A partir daí, acelera-se o processo da reforma e em 2010, o SUS realizou 20 milhões de atendimentos. Então em oito anos aumentou 50 vezes o número de atendimentos. A reforma permitiu atingir regiões que nunca tiveram acesso, saímos da orla do país para adentrar , com a interiorização da atenção psiquiátrica. Hoje literalmente temos CAPS do Oiapoque ao Chuí, mas não só. Tem CAPS no Acre, no interior do Amazonas, em locais isolados. Em Roraima eu estive há alguns anos, tinha um psiquiatra que estava de saída. Hoje, tem quase vinte. É surpreendente a oferta que passa a se criar com a reforma.
Sul21 – O senhor tem dados da criação de Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e expansão da rede nesse último período?
Tikanory – Atualmente, no Rio Grande do Sul tem 186 CAPS. Quatro anos atrás, eram 139, então são 47 a mais, ou seja, crescimento muito grande. Tem 12 CAPS que são 24 horas. Esses anos todos foi se aprendendo, testando os tamanhos, e percebemos que a potencia do CAPS não está no tamanho, mas na possibilidade de ofertar serviços. Os chamados CAPS 3 são grandes e funcionam 24 horas, mas precisamos também de CAPS pequenos que acolhem pessoas à noite. Essa ideia de que o serviço pode ser um local acolhedor, protetor, que promove ajuda real foi se desenvolvendo. Daqui para frente queremos estimular essa estrutura de ser capaz de acolher, independente do tamanho.
Nacionalmente, temos CAPS nas cidades de acima de 15 mil habitantes, já temos em 67% das mais de duas mil cidades. Mas o Brasil tem também muitas cidades abaixo de 15 mil, por isso é fundamental a noção de região de saúde. Para agregar do ponto de vista de população e de capacidade financeira, de gestão. Nesse sentido, o Estado terminou com os planos regionais e a gente deve estar levando adiante agora para institucionalizar, publicar os planos regionais do Rio Grande do Sul.

“Não tomamos medidas de força para recolher obesos, ou para recolher diabéticos, hipertensos que não se cuidam”

Sul21 – Em alguns casos de população em situação de rua,  se diz que o Estado não faz nenhuma busca ativa. Existem casos pontuais de populações que se considera que “causa problemas” e não se tem muita abordagem, ou a nível de segurança. O que a sociedade cobra é como o Estado chega nessas pessoas que têm problemas com drogas. Há preocupação com isso?
Tikanory – Essas situações se tornam, particularmente nas cidades grandes, mais evidentes com as pessoas que estão na rua. Isso era um problema para os gestores, como lidar com isso? Porque, de fato, criamos consultório de rua, que fazem busca ativa. Mas o que acontece é que as pessoas recusam atendimento. Então aí entra um dos debates, que algumas pessoas dizem “então pega a força”.
E entramos na questão de que porque pegamos a pessoa que está na rua e usa drogas e por que não pega a força o obeso que tem um ataque cardíaco, tem que ir para o hospital, não quer se tratar, que nos traz mais custos do que os usuários de crack, por exemplo. Não tomamos medidas de força para recolher essas pessoas, ou para recolher diabéticos, hipertensos que não se cuidam. E tem custos isso, se não se tratam vão ter um infarto, ocupar uma UTI, vão ficar sem trabalhar. Mas ninguém quer fazer uma internação compulsória para essas pessoas. Se o que justifica é um estado de doença, existem outros que são muito mais custosos, em quantidade muito maior e nós toleramos. Então não é exatamente esta a questão, porque mesmo que a gente usasse da força, dificilmente mudaria o comportamento.
 | Foto: Priscila da Silva/SES-RS
| Foto: Priscila da Silva/SES-RS
Sul21 – O que se pode fazer em termos de fornecer tratamento para essa população de rua, já se sabe que formas de abordagem são mais adequadas?
Tikanory – Há alguns anos, nos Estados Unidos, os gestores públicos se enfrentavam com problemas análogos e num certo momento radicalizaram. Perceberam que o que estavam fazendo não funcionava e entenderam que se o problema é que tem pessoas na rua, vamos tirar as pessoas da rua. Porque o que incomoda de verdade não é o estado de doença, é as pessoas estarem na rua. Então criaram programas que tem como objetivo tirar as pessoas da rua. Oferta-se uma casa, uma renda e faz-se um contrato de aluguel. E ele tem que sair da rua, se ele topar assina esse pacto e tem um quarto para morar. Isso começou a ser feito e as pessoas se perguntavam se iam cumprir a palavra. Num primeiro ano, mais de 98% mantém pagando regularmente, pagando aluguel. Em dois anos, 87%. Então os caras saem da rua. Os resultados disso: diminui a violência na rua, os chamados de ambulância, incidência de prontos-socorros. Isso não aumenta o consumo, começou a se observar que as pessoas tendem a aderir o tratamento. Na verdade aquelas pessoas que eram resistentes a um atendimento passaram a aceitar tratamento, após ter um lugar para morar.
Hoje tem estudos mais refinados em relação a esse tipo de abordagem no Canadá que começaram a mostrar indícios de que não só essa população de rua tem uma recuperação tanto quanto tratamento tradicional quanto tem efeito melhor. Essas publicações têm cinco, seis anos e o experimento há mais tempo. Essa ideia de que tendo um teto há um outro padrão de tratamento foi uma descoberta. Parece óbvio, mas não era óbvio. Havia uma certa ideia de meritocracia, de que a pessoa precisaria primeiro se recuperar do vício até ir subindo na escada e ser “merecedor” de uma casa, mas se descobriu que não é assim. Em inglês se chama “Housing First”, ou seja, primeiro a casa.

“Quem tinha medo de descer começa a circular nas calçadas. Depois de quatro meses, empresários aprenderam que era mais barato dar emprego do que contratar segurança”

Sul21 – Esse projeto pode ser aplicado no Brasil?
Tikanory – São Paulo fez isso na crackolândia lá, o prefeito Fernando Haddad fez isso, começando em janeiro. Tirou inicialmente 450 pessoas da rua, chamou elas, perguntou o que precisavam e fez o negócio de sair da rua, garantindo um teto, trabalho e possibilidade de educação. Foi o que eles queriam, e não voltaram para a rua, 85% permanece trabalhando regularmente. Uma boa parte parou de usar drogas e a maioria reduziu muito o consumo. Porque eles pensam que enquanto estão trabalhando, não tem tempo de consumir drogas, depois percebem que se diminuir o consumo conseguem comprar coisas que queriam. Isso dá uma perspectiva de participação do processo. As pessoas a grande maioria consegue se manter e faz o uso racional do dinheiro. Eles ganham R$ 15, o pagamento é semanal.
Beneficiários do programa De Braços Abertos, em São Paulo | Foto: Secom SP
Beneficiários do programa De Braços Abertos, em São Paulo | Foto: Secom SP
Eles dizem que fumavam 20 pedras e hoje fumam 4 ou 5. E com esse dinheiro, as pessoas pensavam que com R$ 15 eles não iam parar de fumar, mas não. O que realmente é o motor é que começam a entrar no circuito de reconhecimento. A prefeitura alugou cinco hotéis em situação irregular, regularizou, chamou os donos dos hotéis e pagou por isso, e alugou os apartamentos para esses usuários, que vão varrer os blocos em volta. O efeito disso é que o comércio local começa a circular, as ruas estão mais limpas, as pessoas têm menos medo. Quem tinha medo de descer começa a circular nas calçadas. Depois de quatro meses, empresários aprenderam que era mais barato dar emprego do que contratar segurança, e oferecem 40 vagas de trabalho para o prefeito. Hoje, deve ter umas 15 pessoas que saíram desse programa e já estão trabalhando de carteira assinada.
O programa se chama De Braços Abertos, que foi um nome que os próprios usuários deram. Cada indivíduo desses custa para a Prefeitura R$ 1100, R$ 450 é o salário e o resto é comida e hotel, por mês. A vantagem desse programa é que isso tira a pessoa da rua, esse dinheiro todo circula na economia local.
Sul21 – E como vocês veem a possibilidade de expandir essa experiência para outros locais do Brasil?
Tikanory – Temos discutido isso no Ministério, como expandir isso. Mas claro que é uma questão concreta de que só o Rio de Janeiro tem uma crackolândia parecida com a de São Paulo, com mais de cem pessoal. Em São Paulo, eram mais de mil pessoas e hoje chegou a um momento crítico, em que depois de dez meses há um novo grupo de pessoas que estão querendo a mesma coisa. E acho que o prefeito vai ter que lidar com isso, se está dando certo vai ter que ver como ampliar.
Ou seja, essas experiências começam a mostrar que existe um patamar mínimo de civilidade sobre o qual as pessoas necessitam para poder andar para frente. Abaixo daquilo, não vale a pena ser civilizado. Quando você cria essa base mínima, que é ter uma casa e uma renda, as pessoas começam a pensar sobre o futuro. Abaixo disso, o esforço é muito para ganhar muito pouco, então ficam à margem do processo de sociabilidade e sociedade. E a grande sacada disso é que custa pouco se a gente for pensar. Sendo bem hipotético, se a gente trancasse todas essas pessoas em uma cadeia ou hospital psiquiátrico, custaria muito mais. E não resolve, porque alguma hora elas voltam para a rua, e não se progrediu nada. O próprio município de São Paulo já criou mais quatro polos para expandir.

“O que é interessante é que se imaginava que uma pessoa viciada em crack não tem racionalidade, nem percepção dos seus problemas”

Sul21 – E ninguém ficou chamando de bolsa-crack, bolsa-drogado, essas coisas pejorativas?
 | Foto: Priscila da Silva/SES-RS
| Foto: Priscila da Silva/SES-RS
Tikanory – Ah, com certeza, nas primeiras semanas foi bem isso que se ouviu. Mas a questão é que quando as fantasias começaram a cair por terra, isso mudou. A primeira semana foi bem tensa porque eles iam receber R$ 115 na mão, as pessoas achavam que agora eles iam sair queimando muito crack. E daí veio a surpresa, quando perguntaram o que fariam com o dinheiro um homem disse que ia andar de táxi, que nunca tinha andado. Uma mulher disse “vou comprar um shampoo porque o que a prefeitura deu é uma porcaria”. E as coisas básicas, tipo comprar um chinelo para o filho, comprar uma sobremesa. Então é claro que vou pegar um pouco para queimar, mas o que é interessante é que se imaginava que uma pessoa viciada em crack não tem racionalidade, nem percepção dos seus problemas.
Então desfaz a ideia de que fumou crack não pensa mais nada, é um zumbi. Não só são racionais, como pensam inclusive na racionalidade do capital. Eles têm percepção das suas necessidades. Porque eles falam “quero casa, quero trabalho e quero estudo”, a quinta coisa que eles falam é queria tratamento de alguma coisa. Isso foi marcante em todos, a quebra de mitos, e a ideia de como as pessoas mudam de comportamento dependendo da sua inserção, mudam de atitude. Muita gente fala que são violentos, desrespeitosos, e assim por diante. Mas aí você muda o contexto eles passam a ser cordiais, passam a ser esforçados, andam de cabeça erguida. É a mesma pessoa, e não teve pílula mágica, uma química mágica, sem remédio. O remédio foi, de certa forma, como o Estado posicionou-se frente a essas pessoas.
Sul21 – Então é a ideia de que se o Estado mudar seu posicionamento frente a essas pessoas, daí sim elas próprias irão mudar, e não vice-versa.
Tikanory – Como o Estado se posicionou de forma que eles se tornassem sujeitos, eles passaram a ser sujeitos. Eu acho que esse é um grande aprendizado, e muda a orientação da política pública, não só pela questão da população de rua, mas pra pensar que todos necessitam de uma base de sociabilidade grande. Na questão da saúde mental, corroboram vários estudos contemporâneos, que dissolveram uma dúvida histórica. Quando eu era estudante havia uma dúvida: será que as condições sociais geram transtorno mental, ou será que o transtorno mental leva as pessoas a perder as condições sociais? Isso não se tinha dados. Hoje em dia tem se claramente que as condições sociais geram transtorno mental. Transtorno gera pobreza sim, mas o vetor maior, é ao contrário. E começa a haver estudos de tentar identificar afinal de contas o que na dita pobreza é tão incisivo.

“Por que que tem um monte de gente que está na rua e usa crack? A pergunta é por que essas pessoas não entraram no bonde do crescimento, mas continuam na rua?”

Sul21 – A coordenadoria existe há quanto tempo? Sempre esteve preocupada com as questões relacionadas ao consumo de drogas?
Tikanory – A política da questão das drogas aumentou muito no último período. Não só nessa gestão, mas na gestão anterior. No governo Lula, em 2004 já se tornou mais evidente. Por duas razões, uma parte é porque a reforma a partir de 2002 não tinha como foco a questão das drogas. Então o ritmo de crescimento de serviços voltados para pessoas com problemas de drogas e pessoas com transtornos mentais era diferente. Mas também o problema das drogas começou a se tornar mais evidente de uns tempos pra cá. Isso gerou uma distorção da percepção. Hoje se faz uma pesquisa nacionalmente, qualquer lugar que você vai, o pior problema que você tem de saúde, vai se dizer que é crack. Ou seja, as pessoas percebem e sentem isso como problema, embora não seja objetivamente mais significativo do ponto de vista factual. Uma parte acho que diz respeito à exposição midiática, mas a outra parte diz respeito a visibilidade que é o crack. A grande maioria das pessoas consomem crack na rua, em situações muito visíveis.
 | Foto: Priscila da Silva/SES-RS
| Foto: Priscila da Silva/SES-RS
Nem todo mundo que está na rua usa crack, mas tem uma ligação nessa percepção que vem do seguinte: porque que em um período onde economicamente nós tivemos um crescimento, onde a gente tem uma elevação de dezenas de milhões de pessoas que saem da pobreza, por que que tem um monte de gente que está na rua e usa crack? A pergunta é por que essas pessoas não entraram no bonde do crescimento, mas continuam na rua?

“Quem tinha as condições foi atingido pelas políticas, agora quem não tinha nenhuma, ficou mais de fora ainda”

Sul21 –Sim, essa é uma dúvida que fica. As pessoas subiram de vida no Brasil, mas muita gente ainda mora na rua. Qual a sua hipótese?
Eu comecei a fazer um entendimento do seguinte, é que os processos de promoção, as políticas de promoção social, tiveram efeito extremamente forte de crescimento, mas tem um processo também restritivo. As pessoas que têm menos condições não conseguem subir no bonde do crescimento. Os usuários de crack nas nossas cidades são os jovens e adultos, com baixíssima educação, com muito tempo na rua. Bom, o crack é um dos menores problemas que eles têm. Essas pessoas, com crack ou sem, têm baixíssima empregabilidade, estão há muito tempo fora do circulo institucional. Então essas pessoas tornaram-se visíveis, é um efeito paradoxal do crescimento. Quem tinha as condições foi atingido pelas políticas, agora quem não tinha nenhuma, ficou mais de fora ainda. Acho que isso tem um efeito macro social que é a ideia de que aqueles que ascendem querem romper laços com os que ficam pra trás.
Então por isso que essa estratégia do Housing First começa a fazer sentido. Porque são pessoas que se você exigir muito elas não entram. Acho que a questão fundamental é essa, nós estamos tendo que lidar com as dores do crescimento. Isso significa reajustar determinadas percepções sobre os problemas da sociedade hoje. O crack já existia há mais de vinte e tantos anos, então não é uma novidade. A novidade é que gente pobre está usando na rua.

*Colaborou Sinara Sandri

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

MANIFESTAÇÃO

Como tenho recebido manifestações indignadas pela publicação numa revista semanal  sobre uma matéria minha lida antes do comício de Lula em BH,  venho manifestar que:

1- A revista mentiu ao dizer que fiz um "diagnóstico" do candidato. Para se ter um diagnóstico ou laudo  são necessários  critérios técnicos específicos, e não foi o caso.

2- A matéria faz alusão a  um suposto distúrbio,  portanto, não é afirmativa. Se eu tivesse afirmado conclusivamente, estaria cometendo um grave erro. Portanto, não cometi nenhum crime de injúria, até porque não citei o nome de ninguém no texto.

3- Outras matérias, na mesma linha, foram publicadas no mesmo dia da minha e não despertou a mesma fúria da revista, cujos conteúdos  publico a seguir, NÃO SÃO DIFERENTES DO MEU TEXTO. Nelas, os profissionais afirmam algumas características negativas do candidato de forma contundente.

4- Por que os autores dos comentários raivosos e mal educados abaixo não se indignam também com esses profissionais, que traçaram um perfil negativo do candidato? Por que a raiva seletiva? Com certeza estão contaminados pela matéria  destorcida e inflamada da Veja que é panfletaria do candidato!

5- Quanto às ameaças e injúrias a mim dirigidas aqui e no meu perfil pessoal do Facebook, já fiz um "print" no sábado, dia 19 e registrei um BO para as devidas providências, já que foram palavras de baixo calão e  ataques à minha honra. Coisa que não fiz na minha matéria, em momento algum.

6- Decidi retirar minhas matérias do ar, hoje, dia 19 de outubro\14,  dado o desrespeito  e os ataques à minha honra, por partidários do candidato opositor, praticado nos comentários. cujas cópias  estão  a seguir para conhecimento de quem foi autor. O BO registrado nesta data me resguardará para as providências que se façam necessárias.




Por fim, seguem as outras matérias de profissionais da UNB,  na mesma linha de opinião sobre a conduta do candidato, publicadas em canais de mídia, conforme a seguir:

Link: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/10/para-psicologo-expressoes-faciais-de-aecio-neves-em-debate-da-band-mostram-desprezo-por-adversaria/


Para psicólogo, expressões faciais de Aécio Neves em debate da Band mostram “desprezo” por adversária


outubro 19, 2014 14:39
Para psicólogo, expressões faciais de Aécio Neves em debate da Band mostram “desprezo” por adversária

De acordo com doutor em Psicologia da UnB, a “excessiva quantidade de microexpressões de desprezo transmite uma ideia de narcisismo, de superioridade presumida, o que não agrada ao eleitor comum”
Por Redação
Sergio Senna Pires é doutor em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professor do Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Atualmente, é servidor efetivo na Câmara dos Deputados como Consultor Legislativo nas áreas de Defesa Nacional, Segurança Pública e Direitos Humanos.  Além disso, Senna Pires desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas de análise da mentira, linguagem corporal e regulação do comportamento por crenças e valores.
Analisando os debates entre presidenciáveis na disputa eleitoral deste ano, o psicólogo publicou, em sua página profissional, uma análise das expressões faciais do candidato Aécio Neves (PSDB), que tem gerado polêmica por ser considerado “debochado” e “agressivo” em suas colocações. Abaixo, republicamos a análise de Sergio Senna Pires na íntegra:
Aécio Neves e o Duping Delight
Depois do debate do segundo turno na Rede Bandeirantes de Televisão, comecei a notar uma grande movimentação nas redes sociais dando conta do desprezo mostrado pelo candidato à Presidência da República Aécio Neves.
Eu havia identificado diversas expressões de desprezo durante as falas, mas não pensei que fossem causar o impacto que causaram. Hoje, analisaremos essas expressões e explicarei o duping delight.
O que é o duping delight?
O duping delight (não existe uma expressão em Língua Portuguesa) na literatura científica norte-americana é, numa tradução livre, o prazer proveniente do ato de enganar. Penso que é mais adequado entender que é um prazer proveniente do êxito de uma estratégia ou mesmo da antecipação psicológica desse êxito, não necessariamente associado ao ato de enganar.
Vejam:
imagem1

É uma emoção irresistível, inicialmente não consciente também associada ao risco ou à fuga dele. Também aparece nas situações em que há desprezo pelo interlocutor ou pela situação em questão. Outro cenário em que aparece é diante do orgulho soberbo em compartilhar conquistas ou em alguém que busca a admiração pelas suas façanhas. É muito difícil de conter, por isso vale a pena aprender a identificá-la.
Quando uma pessoa sente que seu plano vai dar certo, ela pode mostrar o duping delight. Um exemplo disso é aquele sorrisinho discreto e unilateral que seu algoz no trabalho exibe quando você passa por alguma dificuldade em frente aos colegas. Dessa forma, essa expressão também está associada ao desprezo que alguém sente em relação à outra pessoa…. Veja a figura ao lado e tente lembrar se já viu essa expressão.
Aécio no debate da Band
A quantidade de expressões de desprezo mostradas pelo candidato Aécio Neves durante o debate foi notadamente alta. Sob o ponto de vista comportamental, isso explica o porquê da impressão que as pessoas tiveram. Apesar de não serem técnicos e não conseguirem explicar as suas impressões, o sentimento é que Aécio desprezava Dilma… Esse foi o comentário nas redes sociais. Como expliquei acima, não há uma indicação positiva no uso dessa expressão…. O candidato Aécio Neves só perde com ela.
Vejam as expressões:
imagem2

Em apenas uma rodada de perguntas e respostas (cerca de 5 minutos), referentes às investigações de corrupção na Petrobras, contamos 7 expressões de Duping Delight, mostradas acima. É muito…
Mostrar expressões de duping delight é vantajoso?
Como estratégia, mostrar o duping delight não é vantajoso para Aécio. A excessiva quantidade de microexpressões de desprezo transmite uma ideia de narcisismo, de superioridade presumida, o que não agrada ao eleitor comum. Os correligionários do PSDB não ficarão incomodados, mas em um momento crítico da campanha, esse tipo de indicador não verbal é, certamente, negativo.
Como especialista recomendo ao candidato e à sua assessoria que façam o possível para evitar essas expressões de forma tão generalizada. Com toda a certeza isso vai prejudicar a imagem de Aécio.


Outra matéria de uma profissional em fonoaudiologia e expressão corporal, conforme o link  a seguir no site do UOL:

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=6710625555816160294#editor/target=post;postID=6367061951414640219






Gestos e cara feia dos presidenciáveis revelam ironia e agressividade

Do UOL, em São Paulo
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A consultora de media training Aurea Regina de Sá e a fonoaudióloga e doutora em linguística Claudia Cotes analisaram os pontos positivos e os pontos negativos da participação da presidente da República e candidata à reeleição pelo PT, Dilma Rousseff, e do candidato à Presidência pelo PSDB, Aécio Neves, no debate promovido por UOL, SBT e Jovem Pan nesta quinta-feira (16). 
Muitas vezes, Dilma Rousseff demonstrou mau humor na expressão facial e deslizou na língua portuguesa. Mas acertou ao substituir o termo "eu acho", muito usado por ela ao longo da campanha, pelo "eu acredito", analisa Aurea.
Já Aécio demonstrou habilidade com a linguagem e com as expressões corporais. Mas errou ao adotar o tom irônico e agressivo ao se dirigir a Dilma, avalia Claudia.
A seguir, estão os vídeos:

MAU HUMOR NA EXPRESSÃO FACIAL REVELA DIFICULDADE DE DILMA

AÉCIO ERRA AO USAR PALAVRAS AGRESSIVAS E IRONIA CONTRA DILMA

VISUAL HARMONIOSO FOI PONTO POSITIVO DE DILMA EM DEBATE

EXPRESSÃO CORPORAL E INTERAÇÃO SÃO PONTOS POSITIVOS DE AÉCIO





quinta-feira, 31 de julho de 2014

COM OS OLHOS DO CORAÇÃO


COM OS  OLHOS DO CORAÇÃO

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”
(Carlos Drummond de Andrade)


                                                                                                                        
Neide Maria Pacheco*


Venho acompanhando com muito interesse o debate sobre a questão manicomial e as internações compulsórias de dependentes químicos e portadores de sofrimento mental.
Sinto-me no dever de abordar sobre esse tema, tendo em vista que convivo e convivi com essa situação em família durante muitos anos. Várias são as posições de pessoas que, de alguma forma, leigas ou não, com experiências no tema ou não, expõem opiniões que nada ajudam na elucidação do drama de quem faz uso das substâncias que causam dependência química e também do desencadeamento de crises psicóticas, arrastando um grave quadro de transtornos emocionais, físicos e psíquicos e das relações sociais de forma devastadoras.
Em geral, os familiares não conseguem entender a gravidade da situação e não suportam conviver com essa doença compulsiva e os transtornos mentais que a acompanha. De fato, é muito difícil aceitar que esse doente se lance diuturnamente na sofreguidão do vício e é perfeitamente compreensível o pavor da família que não sabe como e o que fazer. O comportamento choca, a promiscuidade é flagrante, o defeito de caráter é patente.  Mas, é bom que se lembre: são seres humanos que estão perdidos  em si mesmos, angustiados e ávidos para mudar o rumo. Só que não conseguem. A loucura causada por essas relações ameaçam a todos,  e lidar com essa diferença é um desafio constante que adoece a todos os envolvidos.
Tenho na família um portador de esquizofrenia, desencadeada por uso de substâncias químicas ilícitas. Depois de algumas internações compulsórias, que duraram em média 30 dias cada uma, todas ocorridas antes da sanção da Lei Antimanicomial, em nenhuma delas houve resultado satisfatório, ou seja, o paciente não alterou em nada sua compulsão e ainda piorou seu quadro de esquizofrenia. A “orientação” do hospital psiquiátrico era a de manter o paciente confinado e sedado, “zumbizado” e em estado de morbidez constante. Nas visitas, mal conseguia se expressar, com olhar vago e os músculos retesados pela forte carga de Aldol e Akineton.  Naqueles  pesados dias de visitas nenhuma informação sobre a evolução do quadro, nenhum contato dos médicos, nenhuma atividade laboral. Um ambiente frio, triste, impessoal e uniforme, todos sob efeito das drogas medicamentosas, como um bando de mortos-vivos andando em círculos, braços tesos, pernas robóticas e babando. Um quadro desolador.
Um aspecto importante é que a família, perdida e sem saber o que fazer, usa da ameaça de internação, não como uma proposta de tratamento e recuperação, mas como uma forma de punição, formando um jogo terrivelmente maléfico.  Por outro lado, o doente, pressionado e em crise profunda, acaba por se tornar violento e a fuga é sua primeira opção. Na rua, ele experimenta a ausência dos limites que em casa tem de cumprir, busca a companhia de seus pares  no gueto, nas esquinas, nos viadutos  e aí encontra o “amparo” dos iguais.
O Estado, omisso em suas responsabilidades,  tem feito um movimento contrário à recuperação dessas pessoas. A onda de  internar forçosamente  os dependentes químicos é uma tragédia sem precedentes. As “clínicas” que estão pipocando por todo lado, a maioria de caráter religioso,  evangélicas, não reúnem, nem de longe, o ambiente adequado para um tratamento eficiente. Elas são fundadas apenas e tão somente para arrecadar recursos públicos e não mantêm qualquer condição de tratar nem recuperar ninguém, são depósitos de gente trancafiada sob rígida vigilância, submetida a castigos físicos e psicológicos e obrigada a manter subserviência religiosa com a congregação mantenedora. Não passa por avalição médica periódica, não tem privacidade, a comida é de má qualidade e as  pessoas sem qualquer conhecimento técnico ou preparo pra lidar com a causa. É um modelo excludente e prejudicial ao ser humano em sua integridade.
Nesse modelo privatista, baseado no lucro, com o jogo da vida humana, a família fica excluída e até proibida do contato tão necessário. Afeto é um item extremamente importante em qualquer situação, principalmente nas de risco que envolve o tênue fio entre  vida e  morte.  Muito nos trás indignação a pouca preocupação do Estado ao repassar a essas instituições recursos públicos, sem a responsabilidade com os resultados. Essa é uma demonstração cabal  de que o Estado quer empurrar o problema, e pior: agravá-lo ao criar um círculo vicioso de internação,  fugas constantes de pacientes, alta sem condições de reinserção social e a volta pra rua ou pra família, causando violências e aprofundamento das crises. Essa situação pode ser também descrita nos casos de internação de pacientes portadores de sofrimento mental de todas as matizes.
O modelo bom é aquele que considera o sujeito como cidadão, portador de todos os direitos e deveres, porém sem obriga-lo a nada, já que o tratamento precisa ser considerado como uma opção de recuperação  e não como uma punição pelo seu “mal comportamento”. O atendimento por  equipes multidisciplinares é a melhor das condições por considerar o paciente como um ser complexo e com necessidades emocionais,  afetivas,  físicas e outras várias.  As clínicas de rua e os hospitais-dia, mais o aparato familiar reúnem condições importantes para o sucesso do tratamento. As internações só seriam necessárias em casos  extremos de surtos e por um período curto. As psicoterapias de grupos de  mútua ajuda também são bem-vindas,  já que proporcionam  trocas e suporte  de uns para com os outros  no dia a dia. O atendimento participativo de outros profissionais da equipe cria vínculos  importantes e dá segurança ao paciente. As oficias laborais estimulam a criatividade, ajudam a extravasar tensões e cria ambiente amistoso entre os pacientes do hospital dia.  Os familiares podem acompanhar também com seus grupos de mútua ajuda para reaprender a lidar com a nova fase da vida de seu ente querido com o objetivo de reinseri-lo aos poucos. As recaídas são previstas e é preciso muita perseverança.
È aí que se insere a diferença entre o  modelo  excludente da psiquiatria tradicional e das falsas clínicas de recuperação e o novo modelo proposto pela proposta antimanicomial. A reinserção ao convívio familiar e na comunidade é a chave para um bom resultado.
Os hospitais e clínicas psiquiátricas tradicionais só servem para punir, excluir e  piorar as condições desses portadores de sofrimento mental e dependentes químicos, além de não ajudar a família a lidar com a doença. Já temos informações suficientes pra entender que o louco e o dependente químico também expressam as relações doentes de uma sociedade  que recusa as diferenças,  os joga no limbo e primam pela lucratividade com a doença.
O modelo manicomial sequestra oficialmente  o sujeito, a família violenta o doente, o médico  tem o poder absoluto sobre ele e nada mais lhe resta a não ser perambular sem rumo.
Ao defender o fim desse modelo maléfico,  estou querendo dizer que não há saída se não olharmos o outro com os olhos do coração. Não há cura se não houver amor nas relações e o fim da  desqualificação do outro, é preciso dar aos sujeitos  a oportunidade de exercer o direito sagrado da cidadania!

*Graduada em psicologia pós-graduada em Direitos Humanos


Mais informações, acesse o  link: 


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Síndrome da hiena Hardy

  Cansada mesmo de ver essa gente pobre de espírito reclamando de tudo, como se o Brasil fosse o pior país do mundo! Não lê, não se informa, vai como gado no estouro, sem pensar. São aquelas pessoas que você quer manter distância, que só ficam reclamando da sorte e não conseguem ver fatos positivos e as coisas boas ao seu redor! Gente mal humorada, infeliz e azeda? Isso tem nome: é distimia, um  transtorno  mental que se caracteriza por um eterno descontentamento! Sabe aquela hiena Hardy Har Har, do desenho animado? Oh dia, oh azar, nada está bom, tem ceticismo, desesperança, preocupação, não sabe lidar com frustrações, sente-se preterido, raivoso, atordoado... Adivinha de quem lhes falo? Claro, é do coxinha brasileiro que assume o discurso de ódio e de baixa estima que a mídia venal lhe impõe 24 horas ao dia! 

A síndrome da distimia está contagiando pessoas de qualquer idade e parte da juventude, que anda sempre de mal com a vida, mesmo sem motivos concretos, reclama porque é moda, é onda. São presas fáceis de discursos extremistas e míopes, capazes até de soltar um rojão inconsequente e atingir mortalmente a cabeça de alguém. Pena que só depois é que vai pensar na insanidade que praticou. São esses mesmos esquerdopatas que convidam ativistas de uma ong norteamericana especializada em táticas de desestabilização de movimentos sociais, de manipulação de massas, financiadas por George Sorous, o maior investidor capitalista do mundo que, inclusive, financiou a tomada de poder na Ucrânia pelos neonazistas!

Gostar do Brasil, vibrar com cada avanço social e econômico virou brega, caretice de gente velha, de "esquerda de sofá", como gostam de dizer pejorativamente dos ativistas virtuais. Tem até um nome muito pomposo que adoram citar "governismo". Fazem coro com a maldita imprensa que destrói esperanças, impinge a síndrome de vira lata por meio de seus periódicos e telejornais que vomitam mentiras, distorcem fatos e atacam diuturnamente a esquerda pra agradar as elites e os EUA, desfazem dos avanços tão difíceis de se arrancar num país que viveu sob as garras de uma elite sedenta, desde os tempos da invasão portuguesa e que ainda sobrevive nos bastidores, se agarrando  com as armas que tem pra manter o domínio.  O PSDB e DEM, com seus aliados de plantão, representam esse atraso  e a volta da corrupção endêmica ao país!

Demonstrar amor pelo Brasil, pela nossa diversidade cultural, pela nossa gente boa, criativa e alegre, pelas conquistas sociais. hoje é símbolo de adesismo na mente insana dos coxinhas direitistas  e de esquerdopatas, que não se importam se a direita liberal voltar ao poder e arrombar tudo, destruir as conquistas que obtivemos nesses últimos anos a duras penas.






Neide Pacheco - BH

domingo, 18 de maio de 2014

Recordar é viver, eu estava lá!! Movimento da Luta antimanicomial na ALMG e a briga pra aprovação da Lei 11.802.

Recordar é viver, eu estava lá!! Movimento da Luta antimanicomial na ALMG e a briga pra aprovação da Lei 11.802. 


A ferrenha disputa que se travou na ALMG contra os deputados e empresários da saúde, favoráveis aos ideários manicomiais, foi uma coisa surreal! Só quem a viveu isso pode testemunhar o que aconteceu. Foi um dia memorável e que poucas pessoas sabem.

O projeto de Lei, de autoria dos Deputados Carlão, de quem eu era assessora e de Antonio Antônio Carlos De Jesus Fuzatto, ambos do PT, estava em tramitação e os debates eram pesados. O Deputado do PSDB, Hely Tarquinio, médico e dono de hospital psiquiátrico em Patos de Minas, era um forte opositor do modelo de deshospiltalização dos pacientes manicomiais. O PL propunha uma nova abordagem ao tratamento psiquiátrico e indicava o fechamento de hospícios e transformação dos hospitais psiquiátricos em hospitais gerais, com leitos destinados aos pacientes em crise psicótica. Então, invertia a ordem das coisas e humanizava o tratamento, propunha a criação dos hospitais dia e inseria as equipes multidisciplinares no atendimento ambulatorial e nas atividades clínicas.

É óbvio que os lucros obtidos com as internações compulsórias eram altíssimas e manter esses interesses era o que movia os donos de hospitais psiquiátricos ao barrarem a aprovação da Lei. Naqueles anos de 1995 e 96 eu registrei, numa entrevista ao Jornal Hoje em Dia, por ocasião de um debate para o qual fui convidada, por ser da direção do Sindicato dos Psicólogos, que o Ministério da Saúde do Governo de FHC havia liberado USd 300 milhões, apenas para o setor de Saúde Mental, mas apenas 22%, ou seja, USd 66 milhões haviam sido usados para pagar as despesas de tratamento. Então, esse setor da Saúde engordava os bolsos de donos dos manicômios. Era uma situação calamitosa. Pacientes lotavam os hospícios apenas para dar lucros aos donos.
Bem, voltemos à ALMG. Num dia memorável, conseguimos, por meio da militância da Luta antimanicomial, colocar nas galerias da Assembléia de Minas, cerca de 100 pacientes, vindos dos mais diversos locais da grande BH para presenciarem os debates sobre a o PL. O que se via nos rostos dos deputados e seguranças da Casa Legislativa era o horror! Amedrontados, atônitos, os deputados não acreditavam no que viam ali. A nossa coragem foi extraordinária ao mostrar ali que a loucura era uma coisa real, visível e não só a que a imprensa mostrava nos porões. Mas, os pacientes estavam tranquilos, sorrindo, achando aquilo uma novidade. Estavam sendo considerados por nós cidadãos, protagonistas de um momento ímpar. Esse foi um golpe de mestre, preparado ardilosamente e de forma responsável pela militância da Luta Antimanicomial. O Depoimento das doutoras Marta Elizabeth e de Mirian Abou Yd no plenário, com a ajuda do Deputado Marcos Helênio do PT de quem eu também era assessora naquele ano memorável, foi um momento de catarse geral. A emoção tomou conta de todos. O deputado Hely Tarquinio se viu acuado e teve de negociar. Não ganhamos tudo, mas aprovamos a Lei 11.802/95 que serviu de modelo e ia de encontro à outra, mais tarde em 2001, Lei Paulo Delgado, também do PT que dispunha sobre o fim dos manicômios em nível nacional.
E assim é a luta! Avançamos cada dia um pouco, com abnegados companheiros e companheiras que têm como princípios a humanização do mundo e a luta por Direitos Humanos!

Neide Pacheco - Graduada em Psicologia e Especialista em DH

http://dspace.almg.gov.br/xmlui/bitstream/handle/11037/1029/1029.pdf?sequence=3

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Rio Centro, 33 anos de uma "página infeliz da nossa história"



RIOCENTRO, OS 33 ANOS DESSA "PÁGINA INFELIZ DE NOSSA HISTÓRIA"

São completados hoje 33 anos do atentado militar no Show do Rio Centro em 30 de Abril de 1981, que comemorava o Dia do Trabalhador e tinha como alvos vários artistas da MPB como Chico Buarque, Gonzaguinha, Bete Carvalho, João Bosco, João Nogueira, Alcione, Simone e vários outros. Todos esses artistas estavam engajados nas causas da abertura politica e Movimento pela Anistia. A ação planejada pela ditadura seria colocar sob o palco do show uma bomba que atingiria os artistas. Também colocariam outras bombas próximas ao público para matar pessoas anônimas causando comoção nacional. Caso o atentado fosse vitorioso, a culpa recairia sobre os grupos de esquerda. Isso foi o que planejaram os militares envolvidos.  A tragédia seria montada com a participação dos dois militares portadores da bomba, e outros que estariam nos bastidores para limpar os rastros deixados.  Ocorre que a ação falhou e a bomba explodiu no colo do Sargento Guilherme do Rosário, no banco do carona, que morreu na hora. O outro, Sargento Wilson Machado, sobreviveu pra contar a farsa! Segundo relatos obtidos pela Comissão Nacional da Verdade, os militares de alta patente sabiam com antecedência dessa ação terrorista dos militares, bem como o Presidente General Figueiredo, que  tinha como propósito atrasar a abertura política no país.
Para refrescar nossa memória e informar aos que não viveram esse período sujo da história recente, publico  os links abaixo, com matéria sobre os atentados, que comemorava o Dia do Trabalhador ( 30 de Abril de 1981). O atentado à sede na OAB tinha também  ligação com esse  episódio, ambos no inicio dos anos 80. Mas, a verdade ainda não está completa, ainda faltam peças do quebra cabeças que estão sendo montadas pela Comissão Nacional da Verdade.
Veja o link ao final.

Nessa época assumi, junto com outros colegas, o Diretório Estudantil de Psicologia da PUC/MG. Em BH bombas estavam sendo colocadas pelo  CCC - comando de caça aos comunistas - em bancas de jornais devido à venda de publicações contra o regime militar, havia muita tensão em nossas reuniões que vazavam madrugadas. Uma de nossas missões era a de colaborar com as oposições sindicais que surgiam em várias categorias de trabalhadores, com panfletagens nas portas de fábrica, ajudar com material nas campanhas para a vitória das chapas que expurgariam os interventores e  pelegos históricos das direções. Especialmente, colocava meu fusquinha à disposição das campanhas, colaborei com as oposições dos aeronautas (com meu saudoso irmão Elias), metalúrgicos de BH/Contagem, Massa Forte da Construção Civil e a dos Rodoviários. Tínhamos a energia e a rebeldia da juventude ao nosso favor. Mas, ainda era um período de ditadura com Figueiredo e Golbery/Newton Cruz.

Eu trabalhava na fábrica da Coca Cola. Lá tinha um capitão do Exército que servia de olheiro. Não sabíamos o nome dele, já que era conhecido apenas como "Capitão" e que circulava à paisana o dia inteiro dentro da fábrica, possivelmente para monitorar os trabalhadores e provavelmente "pescar" os nomes de quem poderia desestabilizar a "harmonia" interna. Ele fazia a ponte entre a alta direção da Coca cola de MG e a   ESG (Escola Superior de Guerra do EXÉRCITO) e toda a alta direção tinha uma carteirinha de membro dessa escola. Eu sabia disso porque era a responsável por plastificar as tais "identidades". Se não fosse pra esse fim, qual seria a razão desse milico ficar em nosso meio? Até que, um dia, descobriram a minha militância e fui demitida depois de quase 8 anos de trabalho lá. Mas, não sem antes me prenderem numa sala que tinha apenas duas cadeiras na penumbra, destinada a interrogatórios, pra descobrir quem eu era e a mando de quem eu estava lá. O interrogatório pelo qual passei, com mais 3 colegas, com pressão psicológica,  por cerca de uma hora cada um, serviu pra intimidar alguma possibilidade de organização interna de um grupo de trabalhadores que se insurgia. Pra quem não sabe, a ESG era uma "escolinha" do Exército que transmitia a doutrina de direita e as técnicas de tortura e interrogatórios, visando dar aos milicos e aos civis  as táticas e a formação da Doutrina de Segurança Nacional,  que tinha nomes de peso como o Jurista Ives Gandra, a deputada Sandra Cavalcante, centenas de empresários, vários coronéis , generais e Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador mais famoso do Brasil, estes eram os alunos e professores da ESG.

A coisa ainda se apertava porque estávamos sendo vigiados em todos os locais por onde circulávamos. Os lacaios do regime ainda nos catalogava com filmagens clandestinas, fotografias à distância, ameaças veladas, telefonemas  anônimos e censuras nas noticias. A Abertura Politica e o movimento pela Anistia ainda eram cobrados pelos movimentos sociais e sindicais e  se articulava por meio de apoios internacionais.

Por isso, é importante relembrar esses fatos que são esquecidos ou desconhecidos por quem não os viveu de perto. Muitos de nós arriscamos a pele para exigir a abertura política e decidimos não ficar sentados num sofá confortável  vendo a "banda passar". Isso marcou definitivamente nossas vidas e não dá pra esquecer que muitos amigos, conhecidos, parentes e desconhecidos foram vítimas de um Estado que matava, exilava, explodia e, até hoje, muitos  desses algozes estão sem punição.  Há centenas de famílias que reclamam informações de pessoas que foram "sumidas" .

Por isso, insisto em relembrar esses fatos e  não deixar essa memória morrer. Triste é uma nação que não louva seus verdadeiros heróis. Tristes são as pessoas que ainda dizem que com a ditadura havia "ordem" no país. Tristes são os que ainda hoje, com tantas informações sobre o horrores praticados, desdenham de nós que queremos a abertura dos arquivos pra verdade aparecer em nome dos Direitos Humanos. Não posso ficar impassível, a consciência não permite.

Com um abraço afetuoso.

Neide Pacheco

Aqui os links -

https://www.youtube.com/watch?v=ZWj-YALnsl4

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/como-era-para-ser-o-ataque-do-riocentro-506.html

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-04/atentado-do-riocentro-foi-a%C3%A7%C3%A3o-articulada-do-estado-diz-cnv

http://oglobo.globo.com/pais/riocentro-documentos-revelam-que-figueiredo-encobriu-atentado-12030727


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Arapongagem norte americana - Um recado pro Tio Sam



Olá Tio Sam , sua mãe não te ensinou que bisbilhotar a vida alheia é falta de educação? Pois, então, eu vou te contar uma coisa.

Quando eu era criança morava numa casa bem pequena, tinha 13 pessoas (meus pais e mais 11 irmãos, depois chegaram mais outros de criação). Jamais mexi em qualquer coisa que não fosse minha. Respeitava cada pertence do outro. Mesmo que aquilo fosse da minha extrema curiosidade eu sabia que se mexesse teria que prestar contas ao coletivo. Assim é que cresci e aprendi a não fuxicar a vida alheia, respeitando o espaço comum, pois só assim eu teria meu espaço individual também respeitado, com uma família tão numerosa, não era fácil. Minha mãe era brava demais e não permitia deslizes porque a prole era grande e ela não podia perder o controle, sob pena de sofrer as consequências depois. Quando havia brigas o pau comia em todos, sem distinção... sabe como é, né? Pau que dava em Chico dava em Francisco também. Era um tal de um falar que era o outro e ela não sabia quem tinha razão, então todos levavam lambada... Só assim é que respeitávamos, com medo de sobrar até pra quem não tinha culpa das picuinhas. De resto, fui levando pra vida esse aprendizado de respeito ao coletivo, ao alheio. Sabe aquela máxima: "Faça com os outros aquilo que gostaria que fizessem com você"... minha mãe sempre dizia isso como um mantra. Assim, eu aprendi a respeitar.

Então, Tio Sam, é simples assim. O senhor vive com medo de ser atingido pelos seus inimigos e adversários. Eu sei o motivo. É porque o senhor não respeita a vida alheia e fica bisbilhotando tudo, ocupa espaços que não são os seus, quer tomar tudo pra si, ser dono de tudo, quer enganar, trapacear, destruir, dar golpes, derrubar o chefe de outras moradas, provocar discórdias e sacrificar vidas. Vive gastando fortunas com armas, equipamentos de segurança, comprando aliados. Quer saber se estão conspirando contra você  porque não dá sossego pros seus vizinhos, aí o medo toma conta dos seus dias e noites, e o resultado disso é vigiar, prender e sacrificar dentro de suas próprias cercanias, alimentando esse círculo de desordem e medo. Assim agindo você só terá inimigos, más energias circulando, outras pessoas querendo sua ruína, os outros revidando suas jogadas, causando destruição no seu próprio quintal.  Agora deu pra  invejar o sucesso daqueles que você sempre desprezou? Não percebe que está se lascando todo?

Quer um conselho? Cuide da sua vida, consuma suas energias e recursos construindo amigos, cuidando das pessoas que vivem ao seu lado, olhando mais para dentro de sua casa e deixando de invejar a grama do vizinho que tá mais bem cuidada. Pare de gastar seu dinheiro com equipamentos e armas que não vão te dar tanta segurança, pois nenhum é 100% infalível. Uma hora dessas você vai ser surpreendido com todos os seus inimigos e adversários se organizando pra ocupar seu quintal, revidando toda a maldade que tem feito ao seu redor.


Agora, Tio Sam, só te dou um conselho básico: passe a decorar e viver essa frase que minha mãe sempre disse: "Faça com os outros aquilo que gostaria que fizessem por você". Com isso, você vai saber medir direitinho como agir pra melhorar a vida dos seus e viver em paz... é simples assim!

Neide Pacheco - BH - setembro/2013