quinta-feira, 31 de julho de 2014

COM OS OLHOS DO CORAÇÃO


COM OS  OLHOS DO CORAÇÃO

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”
(Carlos Drummond de Andrade)


                                                                                                                        
Neide Maria Pacheco*


Venho acompanhando com muito interesse o debate sobre a questão manicomial e as internações compulsórias de dependentes químicos e portadores de sofrimento mental.
Sinto-me no dever de abordar sobre esse tema, tendo em vista que convivo e convivi com essa situação em família durante muitos anos. Várias são as posições de pessoas que, de alguma forma, leigas ou não, com experiências no tema ou não, expõem opiniões que nada ajudam na elucidação do drama de quem faz uso das substâncias que causam dependência química e também do desencadeamento de crises psicóticas, arrastando um grave quadro de transtornos emocionais, físicos e psíquicos e das relações sociais de forma devastadoras.
Em geral, os familiares não conseguem entender a gravidade da situação e não suportam conviver com essa doença compulsiva e os transtornos mentais que a acompanha. De fato, é muito difícil aceitar que esse doente se lance diuturnamente na sofreguidão do vício e é perfeitamente compreensível o pavor da família que não sabe como e o que fazer. O comportamento choca, a promiscuidade é flagrante, o defeito de caráter é patente.  Mas, é bom que se lembre: são seres humanos que estão perdidos  em si mesmos, angustiados e ávidos para mudar o rumo. Só que não conseguem. A loucura causada por essas relações ameaçam a todos,  e lidar com essa diferença é um desafio constante que adoece a todos os envolvidos.
Tenho na família um portador de esquizofrenia, desencadeada por uso de substâncias químicas ilícitas. Depois de algumas internações compulsórias, que duraram em média 30 dias cada uma, todas ocorridas antes da sanção da Lei Antimanicomial, em nenhuma delas houve resultado satisfatório, ou seja, o paciente não alterou em nada sua compulsão e ainda piorou seu quadro de esquizofrenia. A “orientação” do hospital psiquiátrico era a de manter o paciente confinado e sedado, “zumbizado” e em estado de morbidez constante. Nas visitas, mal conseguia se expressar, com olhar vago e os músculos retesados pela forte carga de Aldol e Akineton.  Naqueles  pesados dias de visitas nenhuma informação sobre a evolução do quadro, nenhum contato dos médicos, nenhuma atividade laboral. Um ambiente frio, triste, impessoal e uniforme, todos sob efeito das drogas medicamentosas, como um bando de mortos-vivos andando em círculos, braços tesos, pernas robóticas e babando. Um quadro desolador.
Um aspecto importante é que a família, perdida e sem saber o que fazer, usa da ameaça de internação, não como uma proposta de tratamento e recuperação, mas como uma forma de punição, formando um jogo terrivelmente maléfico.  Por outro lado, o doente, pressionado e em crise profunda, acaba por se tornar violento e a fuga é sua primeira opção. Na rua, ele experimenta a ausência dos limites que em casa tem de cumprir, busca a companhia de seus pares  no gueto, nas esquinas, nos viadutos  e aí encontra o “amparo” dos iguais.
O Estado, omisso em suas responsabilidades,  tem feito um movimento contrário à recuperação dessas pessoas. A onda de  internar forçosamente  os dependentes químicos é uma tragédia sem precedentes. As “clínicas” que estão pipocando por todo lado, a maioria de caráter religioso,  evangélicas, não reúnem, nem de longe, o ambiente adequado para um tratamento eficiente. Elas são fundadas apenas e tão somente para arrecadar recursos públicos e não mantêm qualquer condição de tratar nem recuperar ninguém, são depósitos de gente trancafiada sob rígida vigilância, submetida a castigos físicos e psicológicos e obrigada a manter subserviência religiosa com a congregação mantenedora. Não passa por avalição médica periódica, não tem privacidade, a comida é de má qualidade e as  pessoas sem qualquer conhecimento técnico ou preparo pra lidar com a causa. É um modelo excludente e prejudicial ao ser humano em sua integridade.
Nesse modelo privatista, baseado no lucro, com o jogo da vida humana, a família fica excluída e até proibida do contato tão necessário. Afeto é um item extremamente importante em qualquer situação, principalmente nas de risco que envolve o tênue fio entre  vida e  morte.  Muito nos trás indignação a pouca preocupação do Estado ao repassar a essas instituições recursos públicos, sem a responsabilidade com os resultados. Essa é uma demonstração cabal  de que o Estado quer empurrar o problema, e pior: agravá-lo ao criar um círculo vicioso de internação,  fugas constantes de pacientes, alta sem condições de reinserção social e a volta pra rua ou pra família, causando violências e aprofundamento das crises. Essa situação pode ser também descrita nos casos de internação de pacientes portadores de sofrimento mental de todas as matizes.
O modelo bom é aquele que considera o sujeito como cidadão, portador de todos os direitos e deveres, porém sem obriga-lo a nada, já que o tratamento precisa ser considerado como uma opção de recuperação  e não como uma punição pelo seu “mal comportamento”. O atendimento por  equipes multidisciplinares é a melhor das condições por considerar o paciente como um ser complexo e com necessidades emocionais,  afetivas,  físicas e outras várias.  As clínicas de rua e os hospitais-dia, mais o aparato familiar reúnem condições importantes para o sucesso do tratamento. As internações só seriam necessárias em casos  extremos de surtos e por um período curto. As psicoterapias de grupos de  mútua ajuda também são bem-vindas,  já que proporcionam  trocas e suporte  de uns para com os outros  no dia a dia. O atendimento participativo de outros profissionais da equipe cria vínculos  importantes e dá segurança ao paciente. As oficias laborais estimulam a criatividade, ajudam a extravasar tensões e cria ambiente amistoso entre os pacientes do hospital dia.  Os familiares podem acompanhar também com seus grupos de mútua ajuda para reaprender a lidar com a nova fase da vida de seu ente querido com o objetivo de reinseri-lo aos poucos. As recaídas são previstas e é preciso muita perseverança.
È aí que se insere a diferença entre o  modelo  excludente da psiquiatria tradicional e das falsas clínicas de recuperação e o novo modelo proposto pela proposta antimanicomial. A reinserção ao convívio familiar e na comunidade é a chave para um bom resultado.
Os hospitais e clínicas psiquiátricas tradicionais só servem para punir, excluir e  piorar as condições desses portadores de sofrimento mental e dependentes químicos, além de não ajudar a família a lidar com a doença. Já temos informações suficientes pra entender que o louco e o dependente químico também expressam as relações doentes de uma sociedade  que recusa as diferenças,  os joga no limbo e primam pela lucratividade com a doença.
O modelo manicomial sequestra oficialmente  o sujeito, a família violenta o doente, o médico  tem o poder absoluto sobre ele e nada mais lhe resta a não ser perambular sem rumo.
Ao defender o fim desse modelo maléfico,  estou querendo dizer que não há saída se não olharmos o outro com os olhos do coração. Não há cura se não houver amor nas relações e o fim da  desqualificação do outro, é preciso dar aos sujeitos  a oportunidade de exercer o direito sagrado da cidadania!

*Graduada em psicologia pós-graduada em Direitos Humanos


Mais informações, acesse o  link: 


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Síndrome da hiena Hardy

  Cansada mesmo de ver essa gente pobre de espírito reclamando de tudo, como se o Brasil fosse o pior país do mundo! Não lê, não se informa, vai como gado no estouro, sem pensar. São aquelas pessoas que você quer manter distância, que só ficam reclamando da sorte e não conseguem ver fatos positivos e as coisas boas ao seu redor! Gente mal humorada, infeliz e azeda? Isso tem nome: é distimia, um  transtorno  mental que se caracteriza por um eterno descontentamento! Sabe aquela hiena Hardy Har Har, do desenho animado? Oh dia, oh azar, nada está bom, tem ceticismo, desesperança, preocupação, não sabe lidar com frustrações, sente-se preterido, raivoso, atordoado... Adivinha de quem lhes falo? Claro, é do coxinha brasileiro que assume o discurso de ódio e de baixa estima que a mídia venal lhe impõe 24 horas ao dia! 

A síndrome da distimia está contagiando pessoas de qualquer idade e parte da juventude, que anda sempre de mal com a vida, mesmo sem motivos concretos, reclama porque é moda, é onda. São presas fáceis de discursos extremistas e míopes, capazes até de soltar um rojão inconsequente e atingir mortalmente a cabeça de alguém. Pena que só depois é que vai pensar na insanidade que praticou. São esses mesmos esquerdopatas que convidam ativistas de uma ong norteamericana especializada em táticas de desestabilização de movimentos sociais, de manipulação de massas, financiadas por George Sorous, o maior investidor capitalista do mundo que, inclusive, financiou a tomada de poder na Ucrânia pelos neonazistas!

Gostar do Brasil, vibrar com cada avanço social e econômico virou brega, caretice de gente velha, de "esquerda de sofá", como gostam de dizer pejorativamente dos ativistas virtuais. Tem até um nome muito pomposo que adoram citar "governismo". Fazem coro com a maldita imprensa que destrói esperanças, impinge a síndrome de vira lata por meio de seus periódicos e telejornais que vomitam mentiras, distorcem fatos e atacam diuturnamente a esquerda pra agradar as elites e os EUA, desfazem dos avanços tão difíceis de se arrancar num país que viveu sob as garras de uma elite sedenta, desde os tempos da invasão portuguesa e que ainda sobrevive nos bastidores, se agarrando  com as armas que tem pra manter o domínio.  O PSDB e DEM, com seus aliados de plantão, representam esse atraso  e a volta da corrupção endêmica ao país!

Demonstrar amor pelo Brasil, pela nossa diversidade cultural, pela nossa gente boa, criativa e alegre, pelas conquistas sociais. hoje é símbolo de adesismo na mente insana dos coxinhas direitistas  e de esquerdopatas, que não se importam se a direita liberal voltar ao poder e arrombar tudo, destruir as conquistas que obtivemos nesses últimos anos a duras penas.






Neide Pacheco - BH

domingo, 18 de maio de 2014

Recordar é viver, eu estava lá!! Movimento da Luta antimanicomial na ALMG e a briga pra aprovação da Lei 11.802.

Recordar é viver, eu estava lá!! Movimento da Luta antimanicomial na ALMG e a briga pra aprovação da Lei 11.802. 


A ferrenha disputa que se travou na ALMG contra os deputados e empresários da saúde, favoráveis aos ideários manicomiais, foi uma coisa surreal! Só quem a viveu isso pode testemunhar o que aconteceu. Foi um dia memorável e que poucas pessoas sabem.

O projeto de Lei, de autoria dos Deputados Carlão, de quem eu era assessora e de Antonio Antônio Carlos De Jesus Fuzatto, ambos do PT, estava em tramitação e os debates eram pesados. O Deputado do PSDB, Hely Tarquinio, médico e dono de hospital psiquiátrico em Patos de Minas, era um forte opositor do modelo de deshospiltalização dos pacientes manicomiais. O PL propunha uma nova abordagem ao tratamento psiquiátrico e indicava o fechamento de hospícios e transformação dos hospitais psiquiátricos em hospitais gerais, com leitos destinados aos pacientes em crise psicótica. Então, invertia a ordem das coisas e humanizava o tratamento, propunha a criação dos hospitais dia e inseria as equipes multidisciplinares no atendimento ambulatorial e nas atividades clínicas.

É óbvio que os lucros obtidos com as internações compulsórias eram altíssimas e manter esses interesses era o que movia os donos de hospitais psiquiátricos ao barrarem a aprovação da Lei. Naqueles anos de 1995 e 96 eu registrei, numa entrevista ao Jornal Hoje em Dia, por ocasião de um debate para o qual fui convidada, por ser da direção do Sindicato dos Psicólogos, que o Ministério da Saúde do Governo de FHC havia liberado USd 300 milhões, apenas para o setor de Saúde Mental, mas apenas 22%, ou seja, USd 66 milhões haviam sido usados para pagar as despesas de tratamento. Então, esse setor da Saúde engordava os bolsos de donos dos manicômios. Era uma situação calamitosa. Pacientes lotavam os hospícios apenas para dar lucros aos donos.
Bem, voltemos à ALMG. Num dia memorável, conseguimos, por meio da militância da Luta antimanicomial, colocar nas galerias da Assembléia de Minas, cerca de 100 pacientes, vindos dos mais diversos locais da grande BH para presenciarem os debates sobre a o PL. O que se via nos rostos dos deputados e seguranças da Casa Legislativa era o horror! Amedrontados, atônitos, os deputados não acreditavam no que viam ali. A nossa coragem foi extraordinária ao mostrar ali que a loucura era uma coisa real, visível e não só a que a imprensa mostrava nos porões. Mas, os pacientes estavam tranquilos, sorrindo, achando aquilo uma novidade. Estavam sendo considerados por nós cidadãos, protagonistas de um momento ímpar. Esse foi um golpe de mestre, preparado ardilosamente e de forma responsável pela militância da Luta Antimanicomial. O Depoimento das doutoras Marta Elizabeth e de Mirian Abou Yd no plenário, com a ajuda do Deputado Marcos Helênio do PT de quem eu também era assessora naquele ano memorável, foi um momento de catarse geral. A emoção tomou conta de todos. O deputado Hely Tarquinio se viu acuado e teve de negociar. Não ganhamos tudo, mas aprovamos a Lei 11.802/95 que serviu de modelo e ia de encontro à outra, mais tarde em 2001, Lei Paulo Delgado, também do PT que dispunha sobre o fim dos manicômios em nível nacional.
E assim é a luta! Avançamos cada dia um pouco, com abnegados companheiros e companheiras que têm como princípios a humanização do mundo e a luta por Direitos Humanos!

Neide Pacheco - Graduada em Psicologia e Especialista em DH

http://dspace.almg.gov.br/xmlui/bitstream/handle/11037/1029/1029.pdf?sequence=3

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Rio Centro, 33 anos de uma "página infeliz da nossa história"



RIOCENTRO, OS 33 ANOS DESSA "PÁGINA INFELIZ DE NOSSA HISTÓRIA"

São completados hoje 33 anos do atentado militar no Show do Rio Centro em 30 de Abril de 1981, que comemorava o Dia do Trabalhador e tinha como alvos vários artistas da MPB como Chico Buarque, Gonzaguinha, Bete Carvalho, João Bosco, João Nogueira, Alcione, Simone e vários outros. Todos esses artistas estavam engajados nas causas da abertura politica e Movimento pela Anistia. A ação planejada pela ditadura seria colocar sob o palco do show uma bomba que atingiria os artistas. Também colocariam outras bombas próximas ao público para matar pessoas anônimas causando comoção nacional. Caso o atentado fosse vitorioso, a culpa recairia sobre os grupos de esquerda. Isso foi o que planejaram os militares envolvidos.  A tragédia seria montada com a participação dos dois militares portadores da bomba, e outros que estariam nos bastidores para limpar os rastros deixados.  Ocorre que a ação falhou e a bomba explodiu no colo do Sargento Guilherme do Rosário, no banco do carona, que morreu na hora. O outro, Sargento Wilson Machado, sobreviveu pra contar a farsa! Segundo relatos obtidos pela Comissão Nacional da Verdade, os militares de alta patente sabiam com antecedência dessa ação terrorista dos militares, bem como o Presidente General Figueiredo, que  tinha como propósito atrasar a abertura política no país.
Para refrescar nossa memória e informar aos que não viveram esse período sujo da história recente, publico  os links abaixo, com matéria sobre os atentados, que comemorava o Dia do Trabalhador ( 30 de Abril de 1981). O atentado à sede na OAB tinha também  ligação com esse  episódio, ambos no inicio dos anos 80. Mas, a verdade ainda não está completa, ainda faltam peças do quebra cabeças que estão sendo montadas pela Comissão Nacional da Verdade.
Veja o link ao final.

Nessa época assumi, junto com outros colegas, o Diretório Estudantil de Psicologia da PUC/MG. Em BH bombas estavam sendo colocadas pelo  CCC - comando de caça aos comunistas - em bancas de jornais devido à venda de publicações contra o regime militar, havia muita tensão em nossas reuniões que vazavam madrugadas. Uma de nossas missões era a de colaborar com as oposições sindicais que surgiam em várias categorias de trabalhadores, com panfletagens nas portas de fábrica, ajudar com material nas campanhas para a vitória das chapas que expurgariam os interventores e  pelegos históricos das direções. Especialmente, colocava meu fusquinha à disposição das campanhas, colaborei com as oposições dos aeronautas (com meu saudoso irmão Elias), metalúrgicos de BH/Contagem, Massa Forte da Construção Civil e a dos Rodoviários. Tínhamos a energia e a rebeldia da juventude ao nosso favor. Mas, ainda era um período de ditadura com Figueiredo e Golbery/Newton Cruz.

Eu trabalhava na fábrica da Coca Cola. Lá tinha um capitão do Exército que servia de olheiro. Não sabíamos o nome dele, já que era conhecido apenas como "Capitão" e que circulava à paisana o dia inteiro dentro da fábrica, possivelmente para monitorar os trabalhadores e provavelmente "pescar" os nomes de quem poderia desestabilizar a "harmonia" interna. Ele fazia a ponte entre a alta direção da Coca cola de MG e a   ESG (Escola Superior de Guerra do EXÉRCITO) e toda a alta direção tinha uma carteirinha de membro dessa escola. Eu sabia disso porque era a responsável por plastificar as tais "identidades". Se não fosse pra esse fim, qual seria a razão desse milico ficar em nosso meio? Até que, um dia, descobriram a minha militância e fui demitida depois de quase 8 anos de trabalho lá. Mas, não sem antes me prenderem numa sala que tinha apenas duas cadeiras na penumbra, destinada a interrogatórios, pra descobrir quem eu era e a mando de quem eu estava lá. O interrogatório pelo qual passei, com mais 3 colegas, com pressão psicológica,  por cerca de uma hora cada um, serviu pra intimidar alguma possibilidade de organização interna de um grupo de trabalhadores que se insurgia. Pra quem não sabe, a ESG era uma "escolinha" do Exército que transmitia a doutrina de direita e as técnicas de tortura e interrogatórios, visando dar aos milicos e aos civis  as táticas e a formação da Doutrina de Segurança Nacional,  que tinha nomes de peso como o Jurista Ives Gandra, a deputada Sandra Cavalcante, centenas de empresários, vários coronéis , generais e Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador mais famoso do Brasil, estes eram os alunos e professores da ESG.

A coisa ainda se apertava porque estávamos sendo vigiados em todos os locais por onde circulávamos. Os lacaios do regime ainda nos catalogava com filmagens clandestinas, fotografias à distância, ameaças veladas, telefonemas  anônimos e censuras nas noticias. A Abertura Politica e o movimento pela Anistia ainda eram cobrados pelos movimentos sociais e sindicais e  se articulava por meio de apoios internacionais.

Por isso, é importante relembrar esses fatos que são esquecidos ou desconhecidos por quem não os viveu de perto. Muitos de nós arriscamos a pele para exigir a abertura política e decidimos não ficar sentados num sofá confortável  vendo a "banda passar". Isso marcou definitivamente nossas vidas e não dá pra esquecer que muitos amigos, conhecidos, parentes e desconhecidos foram vítimas de um Estado que matava, exilava, explodia e, até hoje, muitos  desses algozes estão sem punição.  Há centenas de famílias que reclamam informações de pessoas que foram "sumidas" .

Por isso, insisto em relembrar esses fatos e  não deixar essa memória morrer. Triste é uma nação que não louva seus verdadeiros heróis. Tristes são as pessoas que ainda dizem que com a ditadura havia "ordem" no país. Tristes são os que ainda hoje, com tantas informações sobre o horrores praticados, desdenham de nós que queremos a abertura dos arquivos pra verdade aparecer em nome dos Direitos Humanos. Não posso ficar impassível, a consciência não permite.

Com um abraço afetuoso.

Neide Pacheco

Aqui os links -

https://www.youtube.com/watch?v=ZWj-YALnsl4

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/como-era-para-ser-o-ataque-do-riocentro-506.html

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-04/atentado-do-riocentro-foi-a%C3%A7%C3%A3o-articulada-do-estado-diz-cnv

http://oglobo.globo.com/pais/riocentro-documentos-revelam-que-figueiredo-encobriu-atentado-12030727


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Arapongagem norte americana - Um recado pro Tio Sam



Olá Tio Sam , sua mãe não te ensinou que bisbilhotar a vida alheia é falta de educação? Pois, então, eu vou te contar uma coisa.

Quando eu era criança morava numa casa bem pequena, tinha 13 pessoas (meus pais e mais 11 irmãos, depois chegaram mais outros de criação). Jamais mexi em qualquer coisa que não fosse minha. Respeitava cada pertence do outro. Mesmo que aquilo fosse da minha extrema curiosidade eu sabia que se mexesse teria que prestar contas ao coletivo. Assim é que cresci e aprendi a não fuxicar a vida alheia, respeitando o espaço comum, pois só assim eu teria meu espaço individual também respeitado, com uma família tão numerosa, não era fácil. Minha mãe era brava demais e não permitia deslizes porque a prole era grande e ela não podia perder o controle, sob pena de sofrer as consequências depois. Quando havia brigas o pau comia em todos, sem distinção... sabe como é, né? Pau que dava em Chico dava em Francisco também. Era um tal de um falar que era o outro e ela não sabia quem tinha razão, então todos levavam lambada... Só assim é que respeitávamos, com medo de sobrar até pra quem não tinha culpa das picuinhas. De resto, fui levando pra vida esse aprendizado de respeito ao coletivo, ao alheio. Sabe aquela máxima: "Faça com os outros aquilo que gostaria que fizessem com você"... minha mãe sempre dizia isso como um mantra. Assim, eu aprendi a respeitar.

Então, Tio Sam, é simples assim. O senhor vive com medo de ser atingido pelos seus inimigos e adversários. Eu sei o motivo. É porque o senhor não respeita a vida alheia e fica bisbilhotando tudo, ocupa espaços que não são os seus, quer tomar tudo pra si, ser dono de tudo, quer enganar, trapacear, destruir, dar golpes, derrubar o chefe de outras moradas, provocar discórdias e sacrificar vidas. Vive gastando fortunas com armas, equipamentos de segurança, comprando aliados. Quer saber se estão conspirando contra você  porque não dá sossego pros seus vizinhos, aí o medo toma conta dos seus dias e noites, e o resultado disso é vigiar, prender e sacrificar dentro de suas próprias cercanias, alimentando esse círculo de desordem e medo. Assim agindo você só terá inimigos, más energias circulando, outras pessoas querendo sua ruína, os outros revidando suas jogadas, causando destruição no seu próprio quintal.  Agora deu pra  invejar o sucesso daqueles que você sempre desprezou? Não percebe que está se lascando todo?

Quer um conselho? Cuide da sua vida, consuma suas energias e recursos construindo amigos, cuidando das pessoas que vivem ao seu lado, olhando mais para dentro de sua casa e deixando de invejar a grama do vizinho que tá mais bem cuidada. Pare de gastar seu dinheiro com equipamentos e armas que não vão te dar tanta segurança, pois nenhum é 100% infalível. Uma hora dessas você vai ser surpreendido com todos os seus inimigos e adversários se organizando pra ocupar seu quintal, revidando toda a maldade que tem feito ao seu redor.


Agora, Tio Sam, só te dou um conselho básico: passe a decorar e viver essa frase que minha mãe sempre disse: "Faça com os outros aquilo que gostaria que fizessem por você". Com isso, você vai saber medir direitinho como agir pra melhorar a vida dos seus e viver em paz... é simples assim!

Neide Pacheco - BH - setembro/2013

segunda-feira, 8 de abril de 2013

RESPEITO É BOM E NÓS GOSTAMOS!

RESPEITO É BOM E NÓS GOSTAMOS
Imagem da WEB

                Noutro dia li uma frase de um amigo na sua rede social que dizia assim:  “Sabe qual é a diferença entre uma mulher com TPM e um pitbull? O batom.”

            Esta frase preconceituosa e degradante limita a compreensão de todos e  reduz uma síndrome importante  ao mais baixo  conceito. Toda e qualquer manifestação de desagrado da mulher e de contraposição a alguma ideia de forma mais exaltada é atribuída à TPM.  Na sala de aula, recentemente,  minha filha  adolescente pediu explicações para a professora sobre uma questão da prova, na qual toda a turma havia  se sentido lesada pela questão mal formulada e que induzia ao erro. No mesmo instante dois colegas começaram a zoar  com a iniciativa correta dela,  dizendo maldosamente, pra deixá-la constrangida: “ela tá de TPM gente”!  E todos deram risadas e causou um alvoroço na sala. À noite, em casa, ela me relatou revoltada o ocorrido quando os colegas não entenderam a atitude positiva dela que ajudaria toda a turma.  Esses fatos e tantos outros dessa mesma natureza me instigaram a escrever essa crônica  ou eu me transformo  numa pitbull se não colocar pra fora o que penso.
               Obviamente, não comprei briga com esse meu amigo. Primeiro devido ao fato de que ele certamente levaria na brincadeira e no desdém e diria que estou na TPM,   porque faz parte do senso comum e do conceito machista fazer chacotas com essa fase mensal da mulher, que é terrivelmente dolorosa e estressante, já que há mesmo uma ebulição de hormônios. Em pelo menos 40% das mulheres  CAUSAM UM MAL-ESTAR FÍSICO E EMOCIONAL acentuado.
                Sabe lá os homens o que é todos  os meses  ficarmos expostas à ação dos hormônios, alguns dias antes e, depois, no mínimo quatro dias sangrando, com dores  nas pernas, nos seios, inchaço e sejam cólicas  intermitentes?  Não sabem, nem têm a mínima noção do que é ficar nessa condição e ainda  posarmos de duronas, ter de mostrar que não estamos nem aí pra esse período e fingir que nada está acontecendo. Então, façam-nos um favor: parem de jogar na lama nosso nome e passem a  tratar com mais respeito a condição feminina.
                Não se pode mais estressar e dizer algumas verdades que logo vem a célebre frase: “ Ih, sai fora que ela  tá na TPM”. Não, nem tudo é TPM. Por isso faço algumas considerações.
                Observem mulheres que trabalham o dia inteiro sob tensão,  tendo que render no trabalho tanto quanto os colegas que não têm nenhuma síndrome e ainda ganham salários maiores na maioria dos casos. Percebam algumas delas que dão duro nos escritórios, nas fábricas, na roça ou nas ruas sob sol escaldante.  Todos os meses estão ali, menstruadas, com as terríveis dores nas pernas. Pensem na mulher  gari ou numa trabalhadora rural que de sol a sol não têm acesso a banheiros com uma ducha higiênica, não têm local adequado pra trocarem seus absorventes. Muitas têm de decidir se compra o leite do dia ou o absorvente que custa caro e que foram reduzidos na embalagem que continha dez e agora são somente oito unidades. Há períodos, dependendo do fluxo menstrual, que são necessárias três ou mais embalagens, onerando os salários já apertados de muitas. E o que dizer dos chefes que nem desconfiam que aquela tristeza ou a cara de cansada e abatida tenha a ver com aqueles dias... Cara de paisagem é  o nosso melhor  disfarce.
                Imaginem também que, após essa jornada, a maioria de nós precisa enfrentar os ônibus lotados, trânsito de duas horas pra chegar em casa, onde têm filhos esperando, deveres de casa, roupas sujas, toalhas espalhadas, pias cheias, compromissos domésticos, jantar, maridos petulantes, incompreensivos, exigentes que, via de regra, se prostram na frente da TV ou do computador e nada fazem a não ser esperar de mão beijada que tudo lhe seja dado, sem que eles tenham de se preocupar  em dividir as tarefas e nem se a mulher está disposta.
                Pensou nessa cena? Então diga a verdade. E se você, homem, fosse submetido a tanta carga. Como reagiria?  Então, nem tudo é TPM, mas um somatório de situações que,  acrescidas ao período  mensal  influenciam no humor e na disposição feminina de forma avassaladora. Assim sendo,  a doce e suave  mulher acaba se tornando numa temerosa pitbull à qual meu amigo se referiu na triste frase. E,  o que dizer dos colegas de minha filha, neste caso, quem é o pitbull mesmo? Fala sério!


Neide Pacheco 

sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHERES INCANSÁVEIS, CONTRA A OPRESSÃO, A POBREZA E A DESIGUALDADE



Desde quando a ONU, em 1910,  estabeleceu o dia 08 de Março como  Dia Internacional da Mulher a partir do trágico incêndio criminoso que matou 130  tecelãs em uma fábrica de Nova Iorque    em 1857,  quando exigiam redução de jornada, licença maternidade  e equiparação salarial com os homens, muitas coisas mudaram.
                Nesses 100 anos, o breve balanço que podemos fazer é que a luta avançou a passos lentos e muitas mulheres entregaram suas vidas e tombaram pela causa, mas grandes e importantes conquistas foram forjadas em todas as áreas nos  últimos 50 anos, empurrando as mulheres para atuarem em todas as profissões, acentuando seu papel como protagonistas dessas mudanças nas áreas das Ciências, das Tecnologias, da Filosofia,  Educação, Economia, da Política e tantas outras.
                 Hoje, já não basta mais só fazermos o discurso contra a violência sexista que estampam as manchetes diárias das mídias e revoltam a todas nós. Em todas as manifestações e pautas de  negociação as mulheres avançam em suas práticas e vão além, buscando ampliar a participação em outros campos da cidadania, exigindo Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, Terra, Água e Agroecologia, pela Democratização dos Recursos Naturais;   Trabalho, Renda e Economia Solidária,  Garantia de Emprego e Melhores Condições de Vida e de Trabalho, Política de Valorização do Salário Mínimo,  Defesa da Saúde Pública e Educação  do  Campo  e Combate à Violência Sexista sob todas as suas formas (física e psicológica), pelo direito de decidir sobre seu corpo. Esses são temas  que hoje pontuam as lutas de todas as mulheres organizadas, em todas as instâncias de participação.  Em nosso país, milhares de cooperativas e empreendimentos mantidos por mulheres fazem a diferença nas suas comunidades, dando exemplo de garra e disposição. Muitas dessas são mulheres que viviam na dependência masculina e oprimidas nessa situação, mas que conseguiram se firmar e se empoderar, protagonizando mudanças para se libertarem como cidadãs criando um círculo virtuoso. 

                 Papel de destaque nas mudanças sociais e políticas, notícias dão conta de que as mulheres exerceram papel fundamental na redemocratização da Tunísia, na Índia a Gangue de Rosa, que reúne milhares de mulheres com saris rosa, enfrenta os homens pelas ruas contra a opressão, a violência doméstica e os vários casos de estupro coletivo. Há, ainda, na Índia a Universidade de Pés Descalços que forma mulheres pobres para atuarem de forma comunitária em várias áreas, desde saúde, moradia popular, energia sustentável, prática dentária e outras. Pelo mundo afora as mulheres estão  se movimentando pra mostrar a sua força e coragem, ocupando um lugar sempre negado na história.
                        
                       Nada, mas nada mesmo, é dado ou concedido sem a luta constante e  vigilante. Aqui, nas nossas fronteiras, muito já conquistamos e, sabemos, não basta termos colocado no cargo máximo do país uma mulher, temos de ocupar cada vez mais os espaços na vida pública, ampliando nossa presença nos cargos de comando do Legislativo, no Executivo, Judiciário e em todos os lugares pra termos vozes ecoando as mudanças que queremos, sob o ponto de vista da alma feminina. Ou seja, firmes na luta, mas com todo afeto!

Neide Pacheco